OI CORTA SERVIÇOS ESSENCIAIS APÓS ATRASO EM PAGAMENTOS E PREOCUPA LOTÉRICAS DA CAIXA, ÓRGÃOS DE SEGURANÇA PÚBLICA E CONCESSIONÁRIAS DE ENERGIA
Fornecedores da Oi interrompem serviços essenciais após atrasos em pagamentos. A operadora em recuperação judicial não terá caixa para honrar contratos a partir de 10 de agosto de 2026, segundo documento da própria administração judicial da empresa. A situação já provocou cortes que atingiram lotéricas da Caixa, órgãos de segurança pública e concessionárias de energia.
A crise foi reportada por O Globo, que teve acesso ao processo judicial. A tele chegou a ter a falência decretada no fim do ano passado; o pedido está suspenso enquanto um recurso da empresa é julgado na segunda instância do Tribunal de Justiça.
O episódio mais recente ocorreu no fim de semana desta quarta-feira (2/8) e quinta-feira (3/8), quando a Sitelbra interrompeu a conexão da rede de casas lotéricas da Caixa, o sistema de videomonitoramento da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, os sistemas do governo de Goiás e as unidades de atendimento da distribuidora Enel no Ceará. Antes disso, a Nava Software, a Nava Serviços e a Hughes também paralisaram serviços prestados à operadora.
Decisão judicial e risco eleitoral
A juíza Simone Chevrand, em decisão de 3 de agosto, determinou o restabelecimento dos serviços interrompidos e proibiu novos cortes sem autorização prévia da Justiça. A magistrada fixou multa de R$ 5 milhões por descumprimento. Segundo ela, a suspensão do fim de semana “não foi a primeira em que a Justiça foi instada, em caráter emergencial, a assegurar serviços públicos essenciais”.
A Oi demonstrou preocupação com o processo eleitoral em documento apresentado à Justiça. A empresa fornece serviços de conectividade em centenas de localidades para transmissão de dados e comunicação entre zonas eleitorais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que não possui contrato ativo com a operadora, mas lembrou que cada Tribunal Regional Eleitoral (TRE) mantém seu próprio contrato de conexão com as zonas eleitorais.
No mesmo documento, a Oi citou impactos potenciais no Poder Judiciário, em prefeituras de diversas partes do país e nos serviços de telefonia fixa. A projeção é de esgotamento total dos recursos no final de agosto, com liquidez negativa.
Patrimônio negativo e venda de ativos travada
O patrimônio líquido negativo do grupo supera R$ 22,6 bilhões, com base nos dados de março de 2026. A disponibilidade de caixa projetada para o fim de julho era de R$ 88,1 milhões; em abril, segundo os dados mais recentes do processo judicial, havia recuado para R$ 19,6 milhões. No documento encaminhado à Justiça, a administração judicial alertou: “Esse quadro impõe sacrifícios extremos no pagamento de fornecedores essenciais e da folha de pessoal, comprometendo a capacidade mínima de manutenção de serviços públicos essenciais ainda não transferidos a terceiros.”
A empresa também enfrenta dificuldades para concluir a venda dos ativos previstos no plano de recuperação judicial. O leilão da Oi Soluções, unidade de negócios corporativos com preço mínimo de R$ 1,4 bilhão, foi realizado em 17 de junho e terminou sem nenhuma proposta. A administração judicial pediu nova rodada de venda, com possível redução do valor mínimo, sujeita a aprovação judicial.
Outro impasse envolve a participação de 27,2% da Oi na V.tal, empresa de infraestrutura de fibra óptica. A venda foi homologada por R$ 4,5 bilhões a fundos ligados ao BTG Pactual, mas a operação foi suspensa pela Justiça após recursos de credores e investidores. Além disso, a Oi ainda não recebeu os R$ 60,1 milhões da venda da UPI Serviços Telefônicos à Método Telecomunicações; a empresa venceu o leilão em abril com proposta à vista, mas a conclusão da transação está condicionada a aprovações regulatórias pendentes.
Corte de empregos sem aval judicial
A Oi tem cerca de 2 mil funcionários na folha salarial. A empresa negociou com 17 sindicatos a demissão de 60% desses trabalhadores, com parcelamento das verbas rescisórias em dez prestações. A Justiça, porém, ainda não autorizou a medida. As equipes dos administradores judiciais estão sem receber salários.
O Ministério das Comunicações informou acompanhar o processo de recuperação judicial. Segundo a pasta, onde há concorrência de outras operadoras, elas podem garantir a continuidade dos serviços em caso de falha da Oi. Nas localidades em que a tele opera sozinha, o ministério indicou a possibilidade de uso das garantias financeiras previstas no acordo da empresa com o Tribunal de Contas da União (TCU). A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) afirmou que a Oi assumiu compromisso de prestar serviços de telefonia nessas localidades até 2028. (Elaine Silva)